Remando contra a corrente
Paratletas da canoagem são destaques em competições nacionais e internacionais e buscam vagas para as Olimpíadas. Fotos: Raphaella Caçapava

Remando contra a corrente

Alguns dos melhores paratletas do país têm como casa o Parque Náutico em Curitiba. Apesar dos resultados, eles enfrentam muitos desafios para se manterem entre os melhores da categoria

Apesar de estarem entre os destaques do mundo quando o assunto é canoagem, paratletas enfrentam dificuldades estruturais e de investimentos na modalidade. Na foto, José Agmarino de Jesus Coelho, o Zecão.

Apesar de estarem entre os destaques do mundo quando o assunto é canoagem, paratletas enfrentam dificuldades estruturais e de investimentos na modalidade. Na foto, José Agmarino de Jesus Coelho, o Zecão.

29 títulos brasileiros, penta campeão sul-americano, campeão pan-americano, quinto no mundial em 2015. Ao discorrer superficialmente sobre a trajetória de José Agmarino de Jesus Coelho, ou apenas como é conhecido e gosta de ser chamado Zecão, fica nítida a trajetória de sucesso do atleta na paracanoagem. Praticamente da modalidade há 22 anos, Zecão é o pai da modalidade no Brasil e tem como missão levar o esporte adiante. Prova disso é a dedicação em manter o espaço de treino e descobrir novos atletas.

Os professores da Universidade do Pará provavelmente imaginaram que Zecão tinha mesmo nascido para a coisa, afinal foram eles que insistiram para que ele praticasse a modalidade. “Eu era atleta de natação e atletismo quando fui convidado para conhecer a canoagem. Lembro que me botaram num barquinho e me mandaram para um rio, eu não gostei nenhum um pouco e disse que aquilo não era para mim. Mas eles persistiram tanto que acabei me apaixonando”, recorda Zecão.

Em 1999 ele participou do seu primeiro campeonato brasileiro em Curitiba. Gostou tanto da cidade que resolveu ficar. Hoje com 48 anos Zecão dedica a vida a paracanoagem e é destaque na modalidade, prova disso são as recentes conquistas: primeiro lugar na seletiva de canoa havaiana (250 e 500 metros) para o mundial que acontecerá em maio na Austrália e a prova do Circuito Brasileiro de Canoagem Oceânica, o objetivo é buscar a vaga para as Paraolimpíadas, que acontece este ano no Rio de Janeiro.

Para conseguir resultados tão significativos os treinos são intensos e as dificuldades, infelizmente, também. “Os paratletas treinam de segunda a sábado. Na parte da manhã canoagem e a tarde musculação. Mas, a verdade é que o apoio é escasso, como não possuímos materiais suficientes os atletas precisam revezar os equipamentos. Em pleno ciclo olímpico e a gente nessa situação, correndo atrás de barco, de remo, mendigando para participar das competições. Simplesmente esquecem que o atleta tem que comer, pagar água, luz, contas como todo mundo”, desabafa.

É um esporte caro. O grupo composto por cerca de 20 paratletas compete pelo município de São José dos Pinhais, e a cidade retribui cedendo o transporte para as viagens nacionais. A Sanepar tem apoiado com uma ajuda para as embarcações e o Governo Estadual e a Prefeitura de Curitiba com bolsas atletas. “A verdade é que as bolsas sempre atrasam e se você fica depois do terceiro lugar nem recebe. Eu sou aposentado, vivo da minha aposentadoria, se não fosse isso eu estaria ferrado. Eu era carpinteiro, ajudante de pedreiro. Depois que perdi minha perna ficou impossível trabalhar nessa área. Infelizmente, todos os atletas de todos os esportes no Brasil deveriam ter apoio, mas todos passam por dificuldades. Estamos num patamar bacana, temos as embarcações próprias, mas é de porta em porta.”, completa. Zecão perdeu a perna após ser vítima de uma bala perdida quando ainda morava no Pará.

Se já não fossem todos os problemas encontrados com a falta de patrocinadores fixos, principalmente para os campeonatos – para se ter noção um barco utilizado nesse esporte custa próximo de R$ 17 mil, um remo R$ 2 mil, fora as passagens nacionais, internacionais e despesas com hospedagem e alimentação -, o local de treinamento também passa por sérios problemas. Segundo Zecão, o Parque Náutico – situado no bairro Boqueirão – tem uma das 10 melhores lagoas do mundo e a melhor do Brasil para a prática do esporte, mas a infraestrutura entorno dela são péssimas. “Falta tudo por aqui. Infraestrutura, como por exemplo,uma arquibancada para as competições,a condição do asfalto é péssima, pichação, roubo dos equipamentos, até os funcionários do local já foram assaltados. Pessoas pescando no local de treino, enfim, são tantos os problemas que tornam nossos treinos muito difíceis”, explica.

Apesar das dificuldades Zecão é muito grato a tudo que o esporte lhe proporcionou. “Para mim não tem felicidade maior do que olhar para traz e ver tudo que percorremos. Ver o nosso clube seguindo em frente entre os 10 melhores do Brasil, os meninos treinando, isso é a coisa mais incrível dessa terra”, vibra. Ele incentiva que os deficientes físicos pratiquem o esporte e conheçam a modalidade. “Quem tiver em casa acamado, venha fazer um esporte para limpar a alma. Se tiver força de vontade vai aprender. Se tiver vontade de conhecer, procure a gente. Aqui não paga nada, só uma ajuda de custo para consertar os barcos”, convida.

Questionado sobre ser o líder do grupo ele é enfático. “Eu não sou líder de nada. Sou apenas uma pessoa que gosta de praticar o esporte e quer ver o esporte crescer. Para isso que me dedico”, finaliza.

À primeira vista o Parque Náutico – que é a casa do remo e da canoagem no Brasil – é um espaço encantador, mas ao fazer a conversão para a entrada começam os problemas. O que deveria ser um local de tranquilidade para os treinos e até mesmo para as pessoas que buscam um espaço para relaxar passa por problemas de infraestrutura, segurança e bom senso dos usuários. Confira abaixo: